Rafa Freire aka Insomnico
Rafael Freire, aka insomnico, é um nômade dos dias modernos. Saiu do Brasil em 2000 e morou nos EUA, Alemanha, Londres e atualmente vive na China. Londres é a sua segunda casa e por lá se formou em design gráfico e, mais tarde, em propaganda. Hoje Rafael trabalha como redator criativo na agencia publicitaria JWT em Xangai. Alimentacao básica: música, fotografia, arte, cinema, tattoo, moda, viagens e carros velozes!
07-09-09

Vou começar esse texto com uma afirmaçao do Jun Matsui, o tatuador samurai Brasileiro:
TATTOING IS DEAD.
Eu identifico diversos motivos que levaram essa linda arte milenar para o carnaval que esta hoje. É importante lembrar que essas sao apenas as minhas opinioes. Que eu nao sou tatuador e/ou historiador, nem entendedor com formaçao profissional nesse assunto. Sou apenas um tatuado apaixonado que gosta de escrever.
Tatuagem é uma coisa extremamente pessoal. O significado de cada tatuagem é importante e, quase sempre, relevante apenas para a pessoa que a carrega consigo.
A razao pra rabiscar o seu corpo de maneira eterna tambem depende do individuo. Cada com seus motivos, suas crenças, suas opinioes.

-Tokyo: Mr Daishi queimando a minha pele.
Pra mim, fazer uma tatuagem, é um ritual extremamente edificante. Comigo o processo começa a partir da ideia do desenho e aonde no meu corpo será sua casa.
Eu gosto de desenhar as minhas proprias tatuagens, nem que seja as vezes um rascunho, discutido e adaptado depois junto ao tatuador.
As minhas tatuagens simbolizam diferentes momentos da minha vida.
Eu por exemplo gosto de guardar tatuagens como souvenirs de lugares importantes pra mim.
Fiz minha primeira tatuagem – presente de 18 anos dos meus pais – quando eu passava uma temporada morando sozinho nos EUA.
A segunda eu fiz em Londres, minha casa por 7 anos.
A terceira foi feita de novo nos EUA em uma época de muitas mudanças.
Logo em seguida veio a quarta, um sleeve oriental freehand que comecei no Brasil e deixei interminado propositalmente.
A quinta foi um sonho realizado. Uma peonia que fiz no Japao e que irá incorporar o resto da sleeve.
A última eu fiz em Xangai, aonde moro hoje, apenas algumas semanas antes de viajar para o Brasil para o meu casamento.

- Peonia feita no Japao antes de terminar sleeve começada em SP.
Minhas tatuagens representam um elo com o país aonde foram feitas, com o tatuador que me pintou. A dor sentida imortalizam nao so a arte mas tambem as memorias, o cheiro de sangue misturado com tinta. Cada tatuagem nada mais é do que um marco na minha tragetória.
Eu nao julgo ninguém por suas tatuagens e nem por suas intençoes, mas pra mim a tatuagem ficou doente quando virou só mais um acessorio de moda.
Programas como o Miami Ink, LA ink, etc, sao muito legais de assistir mas sao tambem banalizadores de uma cultura que nunca foi pop. É o ‘tattoo cool’.
Eu nao sou hipócrita e nao vou ficar dizendo aqui que as minhas tatuagens nao sao tambem pra ficarem a mostra. É claro que existe também um motivo estetico pelo qual eu me tatuo. Mas o que eu posso dizer é que esse motivo, pelo menos pra mim, nao é nada superficial.
Hoje nos vivemos em um mundo que cresceu acostumado a extremismos e radicalismos, aonde foi desenvolvida uma mentalidade entre os jovens de que o nosso corpo nao tem mais o mesmo valor que tinha antigamente.
Ao mesmo tempo que eu olho pra uma pessoa tatuada dos pés a cabeça e vejo a beleza que aquilo tem, eu me pergunto se essa mesma pessoa tem conciencia de cada um daqueles traços que adornam sua pele.
- Tatuagem feita em Xangai.
A tatuagem serve tambem como agregador de tribos. Essa na verdade é a razao original pro surgimento dessa arte.
O negocio é que hoje tem gente que se tatua para se sentir parte de uma tribo. Nao por determinado estilo de tatuagem, mas por motivos estéticos e de comportamento – motivos que dessa vez sim podem ser superficiais.
É como se o sujeito estivesse hasteando uma bandeira para que possa ser identificado por um aliado.
Como fabricas de produçao em serie sao muitos dos estudios de tatuagem hoje em dia. Nao vou generalizar e incluir todos os estudios nessa definiçao, é claro. Mas o processo é o mesmo: Escolhe-se um desenho de um livro, que vira stencil, que vira logomarca.
Quantas pessoas voce ja viu por ai com tatuagens identicas? Pois é…
Sao raras as ocasioes em que o tatuador tem a liberdade pra imprimir uma arte singular na pele de alguem. Sao mais raros ainda os tatuadores que atuam apenas sob essa circunstancia.
Esse é o caso do Jun Matsui. Nao o conheço pessoalmente, mas conheço o seu trabalho e o seu método. Admiro muito toda a tradiçao e ritualismo envolvidos em suas tatuagens. Seus traços impecaveis sao uma mistura unica de estilos oriental e Maori. O fato de tatuar apenas em preto dá uma força tremenda aos seus desenhos, que sao desenvolvidos junto ao tatuado em um processo que pode levar dias.



- Tattoos by Jun Matsui.
Na minha humilde opiniao, tatuagem deveria ser feita assim sempre.
Diferentes visoes para diferentes ocasioes para diferentes opinioes.
Se voce fez uma tatuagem só pra combinar com a colorway do seu Air Jordan, bom pra voce amiguinho! Eu nao vou te criticar e vou ate gostar do desenho provavelmente.
Eu só posso falar de mim. E o que eu posso falar é que vou seguir colecionando meus souvenirs, continuando essa pequena tradiçao que eu criei pra mim mesmo.
Assim me faço feliz. E mais colorido tambem.
Rafa/
